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Este é um tema tão subjetivo que provavelmente cada um de nós tem uma opinião diferente a seu respeito.

Acho que nem sequer é o melhor jogo, é aquele que nós sentimos ser o melhor. Ser o nosso. Para mim os melhores jogos do Benfica foram sempre os mais antigos, aqueles da minha infância, com o meu pai sentado no sofá, enquanto eu me sentava numa cadeira mais próximo da televisão, não para ver melhor, mas para sentir melhor.

Aquela cadeira dava-me sorte, ver os jogos com o meu pai dava-me sorte. Dava sorte ao Benfica. Era eu, éramos nós de certeza.

Não sei se aqueles foram de facto os melhores jogos, não sei se de facto jogávamos mais ou não. Sei que dávamos mais luta às grandes equipas, mas o futebol mudou não mudou? As equipas mudaram, o jogo mudou. E eu também, mudei.

Também não havia delay entre a tv e a rádio. Ou se calhar havia e eu agora sinto que não. Mas pouco importa a realidade ao pé da memória.

2ª mao dos quartos de final da taca das tacas 1993

O meu pai tirava sempre o som da televisão para ouvirmos o eterno Jorge Perestrelo e ficarmos a saber que “ao intervalo de um jogo em Alvalade estava 3-2 para o Benfica e…. Ripaaaa na Rapaquecaaaaa”. O que quer que Ripa na Rapaqueca fosse, parecia fazer perfeito sentido. Ainda me parece fazer. O meu futebol não parece tão lindo sem Ripa na Rapaqueca.

E a dada altura desses tempos, em que o futebol era mágico, e em que eu me sentava naquela cadeira em frente à tv com o meu pai atrás de mim, aconteceu aquele jogo. O meu jogo. Aquele que me fez gritar e chorar. Aquele que fez o meu irmão pequenino esconder-se debaixo da mesa com medo dos nossos gritos. Aquele que me ficou na memória até hoje.

Se perguntarmos a um benfiquista qual o melhor jogo que viram do nosso clube, a maioria escolherá um derby ou um clássico, jogos de maior intensidade dramática e de maior vontade de vencer. A maioria da minha geração escolherá talvez o 6-3 em Alvalade, o grande espetáculo do João Vieira Pinto.

Compreendo, mas para mim será sempre o Bayer-Benfica. Na primeira mão 1-1 na Luz e a seguir um jogo no estádio Ulrich-Haberland, a 15 de Março de 1994, para decidir a passagem às meias finais da extinta Taça das Taças. O Benfica entra de branco místico, de branco lutador, de branco orgulhoso. E decidiu. Não haja duvidas que decidiu.

joao vieira pinto bayer benfica 1993

Contra um Bayer fortíssimo, com o incrível Ulf Kirsten, na altura comparado a Gerd Muller, com Bernd Schuster, Andreas Thom, Lupescu, Hapal, entre outros. Parecia difícil depois da 1ª mão, mas na altura não tínhamos medo de nada, não interessava com quem jogávamos, interessava apenas que eramos o Benfica!

Começámos a perder. 1-0 ao intervalo. A cadeira já não me parecia tão confortável., 2-0 perto dos 60 minutos e tudo parecia ruir. Nada a fazer, os “gajos” são demasiado fortes. Se calhar devia estar a jogar consola como qualquer miúdo de 10 anos e em vez disso estava ali sentado naquela cadeira desconfortável e sem mística.

Mas nós éramos Benfica. Não sei se já vos disse isto, este pormenor importante, nós éramos Benfica! E quando se é Benfica tudo é possível.

Primeiro Abel Xavier e depois João Vieira Pinto deram o empate, e aos 78 a total reviravolta através de Kulkov. 3 assistências de um menino talentoso que despontava no Glorioso, de nome Rui Manuel César Costa. Loucura total. Eu saltei, o meu pai saltou, saltámos tantos milhões. Incrível, fenomenal.

vasili kulkov bayer benfica 1993

Na minha cabeça de certeza que foi aquela minha cadeira da sorte, ou o meu pai estar sentado ali comigo. Ou se calhar era mesmo só o Benfica que era enorme. Mas era eu, éramos nós de certeza.

Jogo de loucos, mas a loucura estava prestes a aumentar. Quando eu pensei que estava feito pois só dois golos nos tirariam a passagem às meias-finais, eis que os dois golos acontecem mesmo. Kirsten aos 80 e Hapal logo de seguida e o Bayer novamente na frente.

“Desisto!!! Eu desisto! Não aguento mais!” Só me apetecia chorar, raios parta os alemães que jogam tanto à bola mesmo sem a gloriosa Mística. Agora já não é possível, menos de 10 minutos pela frente, estádio cheio e uma equipa alemã manhosa a ganhar novamente no seu estádio. Agora acabou.

Mas não, não acabou. Nunca acaba quando és o Benfica. Eu posso desistir mas o Benfica nunca.

85 minutos e aparece o Menino de Ouro JVP. Revienga (mais uma maravilhosa expressão do génio Perestrelo) sobre um alemão e faz o passe para o meio de dois defesas, onde aparece Kulkov a rematar. Golooooooooo!!!

O que eu gritei nesse dia. Parece que estou lá hoje a saltar da minha cadeira da sorte com o meu pai. O meu irmão de 4 anos escondido debaixo da mesa com medo e sem saber muito bem o que estava a acontecer.

Que jogo! Que emoção! Que Paixão!

Depois desse jogo e na mesma época ainda veio o tal 6-3 ao Sporting. Sentado na mesma cadeira da sorte com o meu pai atrás de mim no sofá.

Ano fantástico. Jogos fantásticos. Para mim o melhor será sempre esse jogo na Alemanha, contra aquela grande equipa na altura, com aquele estádio a explodir.

Pouco depois, deixei de ver jogos com o meu pai e deixei de me sentar naquela cadeira. E pouco depois o Benfica esqueceu-se do que era ser Benfica…. Até há pouco tempo atrás.

Mas hoje o Benfica voltou a ser campeão!

Hoje o Benfica é Tetracampeão!!!

Sim, leram bem, o Benfica é Tetracampeão!!!

Hoje o Benfica sabe novamente ser Benfica!

E hoje eu sento-me no sofá da minha casa a ver o Benfica ser Benfica. E curiosamente um rapazinho senta-se numa cadeira à minha frente, mais perto da televisão. Talvez seja para sentir melhor o Benfica. E dá sorte. Ele, o seu pai e a sua cadeira.

Um dia se calhar ensino-lhe o que é a Ripa na Rapaqueca e talvez um dia ele sinta saudades de um jogo destes com muitos anos… e de ver a bola com o seu pai…

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